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16/03/2012

Fita de Nanni Moretti aborda a crise de identidade vivida por um papa

Tiago Faria

No longa, o líder da Igreja Católica sofre com problemas psicológicos e decide se afastar do cargo

Apesar de ter escrito um filme inteiro para azedar a imagem de Silvio Berlusconi (O crocodilo, de 2006), Nanni Moretti não é um polemista. Tampouco quer ser conhecido como um diretor político. Por isso, inútil esperar de Habemus papam, que estreia hoje em Brasília, o acinte furioso contra a Igreja Católica que a imprensa internacional alardeou quando o longa estreou em Cannes, onde competiu há quase um ano. Bombardear a instituição religiosa não é o objetivo primordial do cineasta italiano. A peraltice da vez tem algo de ecumênico: tomar o cinema como chave para um mundo secreto, iluminado e reinventado pela ficção.

Em entrevistas, Moretti comentou que o filme não pretende oferecer um registro jornalístico sobre os bastidores do Vaticano. O realismo, desta vez, passa muito à margem das intenções do cineasta, que se apropria dos rituais católicos de forma a criar um ambiente particular. O que foi noticiado sobre os escândalos da Igreja, argumenta o diretor, está nos jornais e lá deve ficar. “Este é o meu Vaticano, o meu Papa e o meu conclave”, afirmou, para zerar as polêmicas banais. Um ponto de vista jornalístico seria muito pouco para um autor que vê o cinema como espaço para sonho e imaginação. No palco onde “atua” o protagonista desta história — um pontífice em crise de identidade —, tudo é possível.

A ilusão, no entanto, aparece na tela com sutilezas que podem desorientar o espectador. As primeiras cenas, filmadas enquanto uma multidão esperava pelo anúncio do papa que substituiria João Paulo II, morto em 2005, têm o tom solene de uma cobertura de tevê, registrando os rituais visíveis do catolicismo. A graça do filme começa, no entanto, quando a câmera de Moretti especula sobre o que os sacerdotes escondem: a liturgia da eleição de um novo líder mundial. Ao usar o roteiro para fantasiar sobre um teatro a portas fechadas, o cineasta se vê livre para criar cenas hilariantes, como aquela que mostra o alívio dos cardeais que não foram escolhidos para assumir a maior das responsabilidades católicas.

A eleição enervante esbarra num impasse: o cardeal Melville (Michel Piccoli, excelente no papel) deverá se apresentar aos fiéis. Mas o cinema rompe a normalidade, já que o escolhido tem um ataque de pânico e se recusa a aparecer diante do povo. O porta-voz da Igreja despista a imprensa e esconde que o novo papa está tentando resolver o bloqueio com um terapeuta, interpretado pelo próprio Moretti. É a partir dos conflitos entre crenças — a lógica da psiquiatria e os dogmas cristãos — que o diretor de Caro diário (1993) e O quarto do filho (2001) define o tom da narrativa, mais à terra que ao céu. O que não deixa de contar como uma demonstração de fé: na capacidade que o cinema tem de materializar o que, na vida, é invisível.


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