15/05/2008
Ensaio sobre a cegueira, de Fernando Meirelles, não empolga crítica
Carolina Braga
Enviada especial
Cannes – Se as palmas finais servem de termômetro após cada sessão da mostra oficial do Festival de Cannes, é possível dizer que ‘Ensaio sobre a cegueira’ não conseguiu boa nota. Mas tendo em conta que a adaptação do romance de José Saramago dirigida por Fernando Meirelles é um filme de difícil digestão, podemos entender que a platéia de críticos e jornalistas do mundo inteiro ficou paralisada diante da criação do brasileiro.
Rodado no Brasil e no Canadá, Ensaio fala sobre uma epidemia de cegueira que subitamente ataca a população. Os primeiros contaminados são confinados em uma prisão e nesse universo sem imagens a única capaz de enxergar é a mulher do oftalmologista, interpretada por Julianne Moore. “Tentei comprar os direitos do livro em 1998 e Saramago negou alegando que o cinema destrói a imaginação. Seis anos depois, recebi o convite para fazer o filme”, conta Meirelles, que já levou para a telona livros como Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel.
“Quando li o livro, fui atraído pela fragilidade da civilização, nos consideramos tão fortes, sofisticados, e, quando uma coisa básica se vai, tudo entra em colapso.” Fernando Meirelles confessa que, ao repetir as leituras do livro, se deu conta de que a obra de Saramago poderia ser abordada de diferentes formas, pelo viés sociológico ou filosófico, psicológico e antropológico. A força de sua criação está justamente nas pinceladas que dá em cada um delas.
Do ponto de vista antropológico, Ensaio reflete como o homem pode ser extremamente primitivo diante da perda da ordem social. Quando os cegos vão para a prisão, ficam sem comida e sem regras preestabelecidas, os personagens mostram o lado animal do ser humano. É aí que moram as cenas fortes, capazes de paralisar a platéia, e que deram trabalho para o diretor. Durante o período de testes de audiência com o público norte-americano e canadense, muitos espectadores abandonaram as salas ao ver cenas de estupro. O diretor revelou em seu blog que algumas seqüências foram remontadas e o resultado final é mais suave, mas igualmente forte.
Como se trata de um filme sobre cegueira, de certa maneira a falta de visão também afeta a platéia, que não consegue ver claramente algumas cenas, entre elas a do estupro. Está nesse ponto um dos acertos de Ensaio. Fernando Meirelles trabalha com a imaginação do espectador, o grande trunfo da literatura. Para conseguir isso, a fotografia tem papel importante. A cegueira descrita por Saramago é branca, assim o filme tem aspecto de luz estourada. Outro ponto é a trilha sonora assinada pelo grupo Uakti.
Ensaio sobre a cegueira é um convite para refletir não sobre o aspecto patológico e sim sociológico, até mesmo político da cegueira. “Lógico que o livro é dramático, mas à medida que você vai lendo, percebe como é cínico e engraçado quando fala dos governos”, destaca o diretor. É que a epidemia que assola os personagens é ignorada pelos políticos, assim como a sociedade parece não ver – ou não ter a dimensão – que há pessoas que vivem com menos de um dólar por dia ou que inocentes morrem numa guerra sem motivos no Iraque.
“Estou feliz em fazer parte desta produção internacional”, celebra Julianne Moore. Ela, que arrasa na interpretação, não poupou elogios a Meirelles. Segundo a atriz, Cannes é um festival para grandes diretores e a presença do brasileiro é merecida. Julianne divide a cena com a brasileira Alice Braga, o mexicano Gael García Bernal, os japoneses Ysuke Iseya e Yoshino Kimura, os americanos Danny Glover e Mark Ruffalo e o canadense Don McKellar, também roteirista do longa.
Sean Penn
Foi com aquele ar de mau garoto, meio emburrado, que Sean Penn compareceu na entrevista coletiva do Juri do Festival de Cannes. Não que ele estivesse, é apenas um estilo. No alto do cargo de presidente da mesa, caberá ao ator e diretor americano comandar a escolha do vencedor da Palma de Ouro que será entregue no próximo dia 25 de maio. Ele, que já se negou a comparecer em eventos como o Oscar, justamente por não concordar com o fato de se premiar uma obra de arte, não parece ter conflitos internos. "Na minha visão isso aqui não será uma competição. O que vai acontecer é um consenso que não permitirá que nenhum filme seja machucado. Mas outros devem ser bastante celebrados", disse.
Sean compôs uma mesa bastante distinta. Estão com ele os diretores Rachid Bouchareb, Alfonso Cuaron, Marjane Satrapi, e Apichatpong Weerasthakul, além dos atores, Jeanne Balibar, Sergio Castellitto, Alexandra Maria Lara e Natalie Portman. Uma das novidades em 2008 é que o presidente do júri pode escolher um filme para ser apresentado. Penn recomendou The third wave, de Alison Thompson, longa que viu há seis meses e acredita ser importante porque mostra a importância do trabalho voluntário em uma época em que muita gente acredita na política para resolver certas questões sociais.
Alem de presidir o júri, Sean Penn também marca presença no festival francês como ator da produção What Just happened?, de Barry Levinson, responsável por encerrar o evento. Em 1997, ele ganhou o prêmio de melhor ator pelo papel no filme She's so lovely, de Nick Cassavetes.
Próximas atrações
A quinta-feira no Festival de Cannes continua destacando a América Latina. Se ontem, Fernando Meirelles foi o representante, hoje o argentino Pablo Trapero apresenta Leonera, longa que também tem participação de produtoras brasileiras, além de Bong Joon Ho, Leos Carax e Michel Gondry, com Tokyo!. Outro destaque é a exibição fora de competição do desenho animado Kung fu panda, de Mark Osborne e John Stevenson, considerado uma das apostas para o verão cinematográfico americano 2008.




