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27/07/2008

Último dia para conferir a peça Zona de Crime

Lúcio Flávio
Do Correio Braziliense

Trama de Eugene O’Neill se passa durante a primeira guerra mundial

Pai da dramaturgia moderna norte-americana, Eugene O’Neill (1888–1953) foi um mordaz observador das situações que o cercavam. Daí o realismo contundente de seus textos, sempre permeados por personagens amargos e uma inquietante investigação das relações humanas – para ele, conduzidas sob o manto da hipocrisia e da mediocridade. Esses elementos estão presentes no espetáculo ‘Zona de guerra’, em cartaz até neste domingo Teatro da Caixa.

Montagem da Companhia Triptal, a peça faz parte da tetralogia Homens ao mar, série de exercícios curtos escrita pelo dramaturgo entre 1914 e 1917. “O projeto nasceu de uma grande coincidência, durante as aulas para iniciantes do Grupo Tapa, pelas quais eu era responsável. Curiosamente, a turma tinha mais homens que mulheres e um dia resolvi fazer um estudo sobre alguns textos com mais personagens masculinos”, conta o diretor André Garolli.

A escolha da obra de Eugene O’Neill foi uma sugestão de Eduardo Tolentino, diretor do Grupo Tapa. Como conhecia apenas três textos do autor, vencedor do Nobel de literatura, Garolli mergulhou de cabeça no projeto. Resultado: além de levar o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), em 2006, o espetáculo deu ao público a chance de conhecer textos inéditos do dramaturgo no país. “É uma oportunidade única, sobretudo para Brasília, já que é a primeira vez que apresentamos esse projeto na cidade”, avalia Garolli. “Espero conseguir novos espaços na capital para realizar as outras montagens”, torce, referindo-se aos espetáculos Luar sobre o Caribe (2003), Rumo a Cardiff (2003) e Longa viagem de volta para casa (2007).

A trama, escrita em 1916, tem como pano de fundo a Primeira Guerra Mundial e gira em torno de uma tripulação de cargueiro da marinha mercante norte-americana que contrabandeia munição para a Europa. A caminho da zona de guerra, sob estado de tensão sufocante, os tripulantes alimentam a idéia da existência de um espião alemão entre eles. O motivo da suspeita é uma misteriosa caixa preta carregada por um dos rapazes. A partir de então, nascem a paranóia e uma série de conflitos morais. “É um texto bastante realista, já que foi uma realidade vivida pelo dramaturgo, marinheiro por nove anos”, comenta Garolli.

“O que perturba é a atualidade da peça, uma vez que discute a questão do medo como instrumento de manipulação. Quando a gente vê o Primeiro Comando da Capital (PCC), que alguns anos atrás parou a maior cidade do país colocando todos dentro de um estado de terror, ou George W. Bush, ao dizer que o ataque ao Iraque era uma medida preventiva, estamos falando dessa situação”, compara.

Para capturar o clima de claustrofobia que paira no ar, o diretor espremeu o elenco — formado por Roberto Leite, Guilherme Lopes, Bruno Feldman, Kalil Jabbour, Daniel Ribeiro, Wagner Menegare, Pepe Ramirez, Alexsandro Santos e Reinaldo Taunay — dentro de compacta caixa de aço, intensificando mais ainda o tom realista do texto de Eugene O’Neill. O recurso permitiu a Garolli trabalhar leve exercício de metalinguagem. “Era como se os atores estivessem dentro daquela pequena caixa preta, o motivo de tanta confusão”, destaca.



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