04/10/2008
Desenhistas Rafael Grampá e Túlio Caetano falam ao Correio
Pedro Brant
Basta bater os olhos em alguma ilustração dos desenhistas Rafael Grampá e Túlio Caetano para perceber o quanto eles são obcecados por detalhes. Os desenhos do primeiro, em Mesmo Delivery, e do segundo, em Dr. Bubbles & Tilt – Sideral, convidam os olhos para constantes, repetidas e demoradas visitas. Os cenários e os objetos em cena, a caracterização dos personagens, a colorização das páginas e as narrativas dos dois autores estão longe do lugar-comum. Nada mal para quem acaba de colocar nas livrarias seus álbuns de estréia.
Rafael Grampá, 30 anos, é gaúcho de Pelotas. “Nem me lembro como é a cidade, passei a adolescência em Cachoeirinha e Porto Alegre”, conta o hoje morador de São Paulo. O começo da carreira (ainda adolescente) foi ilustrando livros, logos para estabelecimentos comerciais e brasões de bandeiras. Já em Sampa, ele foi diretor de arte do Estúdio Lobo e fez trabalhos em animação para clientes de peso, como Cartoon Network, Nickelodeon, Diesel e Coca-Cola. Depois de uma história curta na coletânea Bang bang (publicada pela Devir em 2006), Grampá participou com ilustrações de mais uma HQ coletiva, 5.
Publicada de forma independente, 5 foi feita com os gêmeos paulistanos Fábio Moon e Gabriel Bá, mais o grego Vasilis Lolos e a americana Becky Cloonan. O título foi premiado como melhor antologia no último Eisner Awards (a mais prestigiada premiação da industria de quadrinhos dos EUA). Foi a primeira vez que um brasileiro levou esse troféu para casa.
Túlio Caetano nasceu na capital goiana, em 1974. Em Brasília, ele se graduou em comunicação pela UnB e trabalhou como desenhista do Correio Braziliense. Em 1998, foi admitido na Escola Superior Européia da Imagem, na cidade francesa de Angoulême (sede de um dos maiores salões de quadrinhos do Velho Continente). Por lá, expôs em diversas cidades e publicou em edições independentes.
Grampá cita o cineasta Sergio Leone como uma de suas inspirações para o álbum. Mas é outro discípulo do diretor italiano que vem à mente ao ler a HQ: Quentin Tarantino, com seu misto de humor, violência estilizada e cultura pop. Na trama, o falastrão Sangrecco e o grandalhão Rufo seguem viagem de caminhão por uma estrada empoeirada. A missão da dupla é entregar uma carga misteriosa. Mas uma parada em um posto de gasolina quase coloca tudo a perder.
Narrativa ágil
A leitura das 56 páginas não dura mais que 10 minutos. Mas a degustação das ilustrações pode levar horas. O desenhista abusa de ângulos inusitados para criar uma narrativa impressionante, ágil e cinematográfica. Não à toa, Mesmo vai ganhar adaptação para o cinema. “E não vai ser no Brasil”, avisa o autor.
Trabalhando atualmente apenas com quadrinhos, Grampá já desenvolve sua próxima criação, Furry Water. “É uma série de seis capítulos de formato ainda indefinido – não sabemos se vamos lançar duas graphic novels contendo três capítulos cada ou se lançaremos cada capítulo separado. Convidei o escritor Daniel Pellizzari para escrever o roteiro da série comigo. Está ficando muito diferente e a história está demais. Não vejo a hora de compartilhar esse projeto com as pessoas.”
Com doses de ficção científica, surrealismo e comédia, Túlio Caetano criou o claustrofóbico universo onde vivem o junkie Tilt e o excêntrico cientista Bubbles. O encontro dos dois acontece por acaso, mas o doutor logo tira vantagem de seu novo amigo – Bubble pediu demissão do antigo emprego e é Tilt, siderado, quem parte para buscar a grana no prédio da empresa. No caminho, assassinos de aluguel e seguranças tentam eliminar o drogadito.
Assim como os personagens de Grampá, os de Túlio têm personalidade e potencial para muitas outras histórias. Que venham então as continuações.
TÚLIO CAETANO
Como surgiu Dr. Bubbles & Tilt?
Para mim, só há duas maneiras de parir uma HQ: ou você imagina a história e depois insere personagens que você cria especificamente pra ela, ou os personagens aparecem do nada, na ponta do lápis, e sugerem insidiosamente uma história. O Tilt é um personagem bem mais antigo, um homúnculo que criei pra exorcizar o estresse e a agressividade da adolescência. Ele não tinha nem nome e só havia vivido em ilustrações ácidas que eu fazia pra mim mesmo. Mas eu tinha prometido uma HQ pra ele um dia, e eu tardo mas não falho.
E quanto tempo você levou da elaboração à finalização dessa primeira história?
Muito tempo, com certeza, mas minha cabeça não funciona cronologicamente, sabe? As gavetinhas da minha memória estão classificadas por assunto, não por data. Grosso modo, foram três anos entre o primeiro projeto e a finalização do número um. Mas não dá para tomar esse lapso de tempo como base para saber em quanto tempo eu faria um número dois, por exemplo. Mesmo porque o projeto inicial era de um álbum de 100 páginas, que começava no que, no projeto atual, é o número dois. Nem a cara do Bubbles era a mesma.
Acha que o momento está mais propício para quadrinhos de autor no Brasil?
Nunca vi momento mais propício. Conheci o Cláudio (Martini, editor), o Sr. Zarabatana, na última Feira Internacional de Quadrinhos em Belo Horizonte. Conversamos muito sobre quadrinhos franceses e a minha experiência lá. Acabei mostrando esse projeto para ele, sem pretensão nenhuma, porque sabia que ele trabalhava só com títulos estrangeiros (de alguns dos meus autores favoritos, diga-se de passagem). Ele logo se animou a publicá-la aqui. Surpresa boa assim é raro acontecer.
RAFAEL GRAMPÁ
Quanto tempo levou para fazer a Mesmo Delivery – da concepção da história à finalização?
Comecei há um ano e meio. Contando tudo, mais ou menos cinco meses. Tive que parar no meio da produção por causa de outro trabalho.
Quando você ganhou o Eisner, já existia o acordo com a Desiderata para publicar a Mesmo, certo? Você chegou a procurar outras editoras por aqui? E o Eisner, já abriu portas para trabalhos no exterior?
Fui atrás de outra, mas a editora me disse que a Mesmo Delivery precisava ter no mínimo 80 páginas para eles publicarem, e o projeto era uma HQ de 56. Aí apareceu a Desiderata. Sim, as portas abriram no exterior, bem legal. Estou desenhando uma HQ do Hellblazer para Vertigo, para começar. A MD vem sendo bem falada no exterior.
Acha que o momento está melhor para os quadrinhos autorais no Brasil?
Parece estar em ascensão, mas só vou acreditar no mercado nacional de HQs quando as editoras, empresários do ramo de publicações e livreiros entenderem que HQ é diferente de literatura em termos de preços. As graphic novels nacionais acabam ficando com um preço que não condiz com o mercado de HQs brasileiras, e isso acaba gerando encalhe, o que dá margem para as editoras dizerem que HQs nacionais não vendem. Os autores vêm fazendo a parte deles. Agora é a vez dos empresários. Só assim esse bom momento poderá ser prolongado e até virar um mercado de verdade.



