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Cinema


23/11/2008

ENTREVISTA// EVALDO MOCARZEL

Pedro Brandt
Do Correio Braziliense

Em 2005, o cineasta carioca Evaldo Mocarzel ganhou o prêmio de melhor filme do Festival de Brasília, segundo o júri popular, pelo documentário À margem do concreto. Passados três anos, o diretor volta à mostra competitiva em 35mm com À margem do lixo, longa-metragem que será exibido neste domingo, às 20h30, no Cine Brasília, com reapresentação às 23h30. Em entrevista ao Correio, Mocarzel fala sobre a produção cinematográfica nacional, sobre o festival e sobre o filme À margem do lixo, o terceiro de uma tetralogia que inclui À margem da imagem (2001) e À margem do comércio, sobre camelôs, o próximo a ser filmado.

O seu longa concorre com três documentários no Festival de Brasília. Na sua avaliação, a predominância do gênero na mostra competitiva do evento é apenas coincidência ou seria uma tendência? O cinema nacional tem se saído melhor nos documentários do que na ficção?

Embora ainda enfrentando problemas no circuito comercial, com índices muito baixos de bilheteria, o cinema brasileiro está "bombando" no documentário e na ficção. Sob o ponto de vista da qualidade artística, a produção contemporânea anda riquíssima e com uma vitalidade impressionante tanto na ficção como no documentário. O Festival de Brasília sempre tratou, em pé de igualdade, o documentário e a ficção, e essa característica sempre foi e sempre será um diferencial dessa mostra tão antiga e tão importante da nossa cinematografia.

A ficção e o documentário são irmãos siameses dessa eternamente misteriosa arte cinematográfica e, como já afirmou o dramaturgo Luiz Alberto de Abreu, a ficção é mais uma camada da "realidade". Vários jornalistas escreveram sobre a predominância do cinema documentário no Festival de Brasília este ano e apontaram como causa de um certo esvaziamento dos filmes de ficção propriamente dita em Brasília o surgimento de festivais abastados que dão elevados prêmios em dinheiro, outra característica forte do Festival de Brasília. A pauta procede e é mesmo muito boa. Como premiar ator e atriz em Brasília este ano? No entanto, há dois concorrentes que irão disputar esses prêmios, os filmes de dois queridos amigos, Rosemberg Cariry e Kiko Goifman, esse último, mesmo sendo um híbrido de ficção e documentário, poderá tranqüilamente disputar os prêmios de ator e atriz.

Por outro lado, acho interessante enfatizar que, há alguns anos, quando participei do Festival de Brasília com À margem do concreto, esse filme sobre movimentos de moradia em São Paulo era o único documentário em meio a cinco ficções e ninguém reclamou que havia sido o único documentário selecionado para Brasília naquele ano, num momento em que muita gente da imprensa escreveu que o filme documentário estava "bombando" no Brasil. O fato é que, como já afirmou o mestre Eduardo Coutinho, o documentário foi, é e sempre será um espaço meio marginal, às vezes visto como um cinema menos "nobre" do que a ficção propriamente dita. E, como já disse, tudo é cinema! E o Festival de Brasília sempre apostou nisso!

Quais os principais problemas que você enxerga na produção cinematográfica nacional – em quesitos estéticos e conceituais?

Sob o ponto de vista estético, lingüístico, acho que uma das tendências mais fortes do cinema brasileiro e mundial é uma espécie de hibridização da linguagem da ficção propriamente dita com um pano de fundo documental, com toda certeza um legado neo-realista que está em autores tão diversos como Beto Brant, Karim Aïnouz, Abbas Kiarostami, Tsai Ming Liang, Sandra Kogut, Chico Teixeira, os irmãos Dardenne, Bruno Dumont, enfim, uma infinidade de exemplos no Brasil e no resto do mundo. Em Brasília, este ano, temos Filmefobia, do Kiko Goifman, de quem sou fã e amigo. Aliás, estou louco para ver esse filme, que deve ser um filmaço bem radical!

No entanto, essa tendência à hibridização da ficção com o documentário pode se tornar uma faca de dois gumes: ao mesmo tempo em que problematizamos a representação do "real" tanto na linguagem do documentário como na da ficção, essa tendência está se tornando uma espécie de modismo, o que muito me preocupa e às vezes até mesmo me entedia quando sinto o ar de modismo ou de imposição estética contemporânea, pois acredito na ficção propriamente dita como uma das camadas da "realidade", como já comentei.

A utilização de não-atores é um recurso bastante freqüente no cinema brasileiro e mundial, mas, se um não-ator pode, um ator pode muito mais. Como tenho construído a minha carreira no cinema brasileiro como documentarista, as pessoas que lerem isso podem pensar: esse cara está completamente louco! Mas acredito mesmo numa ficção liberta de muletas documentais, sem panos de fundo documentais, sem não-atores, que, em alguns casos, estão ali para garantir uma certa "veracidade" das imagens ficcionais. Como diria o teórico Bill Nichols, filmes de ficção são documentários sobre os nossos sonhos, pesadelos, medos, alegrias, tristezas, sobre as nossas inquietações históricas mais profundas.

Comente o surgimento de À margem do lixo. Do que fala o filme? Quem são seus protagonistas?

À margem do lixo é um documentário sobre catadores de materiais recicláveis. O filme surgiu, na "verdade", há muitos anos, durante a realização do documentário À margem da imagem, documentário sobre moradores de rua que tentava discutir a estetização da miséria e o roubo da imagem de quem está na exclusão mais absoluta. Durante as filmagens desse documentário, filmei ocupações, os movimentos de moradia, os sem-teto e também as cooperativas de catadores de materiais recicláveis. Filmei À margem da imagem durante duas semanas e deixei um dia de filmagem para muitos meses depois: para uma exibição que fiz para os moradores de rua no Espaço Unibanco de Cinema, em São Paulo, onde projetei em tela grande a primeira montagem do filme.

Qual seu objetivo com o filme? De que maneira À margem do lixo complementa À margem da imagem e À margem do concreto? Qual será o próximo "À margem"?

A intenção era abrir espaço no documentário para que os moradores de rua criticassem a manipulação que eu havia feito com a imagem deles. Como sabemos, cinema é arte, é linguagem, é manipulação. Eu sabia o tempo todo que estava estetizando a miséria e roubando a imagem do morador de rua, mas procurei problematizar essa discussão no filme. Nessa sessão, lideranças dos movimentos de moradia e também catadores de materiais recicláveis me pediram para sair de À margem da imagem. Eles me disseram mais ou menos assim: "Você está misturando tudo: morador de rua com sem-teto e catador. São coisas completamente diferentes. Se você quiser fazer um filme sobre as nossas lutas, faça um filme sobre os movimentos de moradia e outro sobre os catadores!"

Eu não tinha a menor intenção de fazer uma série de documentários sociais sobre São Paulo, mas, fazendo um documentário sobre o roubo da imagem do morador de rua, não tive saída. Aí fiz À margem do concreto, sobre os movimentos de moradia, e À margem do lixo, sobre os catadores de materiais recicláveis. Esses dois filmes nasceram da recusa de catadores e de sem-teto em permanecer em À margem da imagem. Estava me preparando para fazer o último filme desse tetralogia, À margem do consumo, uma tentativa de discutir o consumismo do capitalismo selvagem brasileiro sob a ótica dos moradores de uma comunidade muito pobre que existe numa área que se tornou "nobre" em São Paulo. Já havia feito a pesquisa, mas o tráfico de drogas tomou conta do pedaço e não é mais possível filmar lá. Vou fazer agora À margem do comércio, sobre camelôs.

O que mais você pode adiantar sobre esse próximo documentário?

O que ainda posso dizer é que, aconselhado por um mestre muito querido, Jean-Claude Bernardet (a quem À margem do lixo é dedicado, ao lado de duas amigas muito amadas, as jornalistas Maria do Rosário Caetano e Beth Néspoli), vou procurar fazer, em À margem do comércio, uma espécie de "verticalização" entre as classes, uma acareação maior entre as classes, uma crítica constante de Jean-Claude Bernardet aos meus documentários.

As temáticas dos três filmes da tetralogia são próximas. O que você faz para não se repetir?

Talvez o nosso olhar de classe média veja esses temas de uma forma meio uniforme, até mesmo pasteurizada, mas aprendi que são temas e personagens sociais completamente diferentes: morador de rua, sem-teto e catador. Logicamente, os temas se tangenciam e nosso olhar de classe média vê tudo sem as devidas camadas, sem os necessários matizes de suas batalhas e lutas cotidianas, reivindicações, rotina de trabalho, alegria de viver uma vida mais digna e justa. Um documentário é uma forma de conhecer o mundo e, nos filmes que venho fazendo, em muitos momentos tento fazer uma espécie de exercício de alteridade, ou seja, ver o mundo através dos olhos do "outro".

Acredita que os festivais de cinema realmente geram algum tipo de discussão que passe do campo meramente cinematográfico? Ou seja, qual o papel do seu cinema? Ele pode atingir o campo social?

Não acho que o cinema, ou melhor, a arte mude nada, mas são capazes de mimetizar o momento histórico que vivemos e de semear um novo olhar sobre temas como população de rua, movimentos de moradia, cooperativas de catadores de materiais recicláveis e síndrome de Down, entre outros temas. Acho que o Brasil e o mundo têm fome de informação profunda e humanizada sobre os mais diferentes assuntos e o documentário tem sim uma procura muito grande num circuito que não é o dos festivais de cinema e nem o elitizado circuito comercial. Trata-se de um circuito alternativo de sindicatos, escolas públicas e privadas, universidades, organizações não-governamentais, instituições religiosas, hospitais, maternidades, enfim, um mundo de possibilidades onde tanto filmes de ficção como documentários podem semear muita coisa bacana.

Não sou Madre Tereza de Calcutá, mas acho que o cinema tem sim uma função política, social, uma semeadura na sociedade, além de ser um espaço de evasão para sonhos, pesadelos e desejos reprimidos. Cheguei a essa conclusão com a procura imensa que meus filmes têm nesse circuito alternativo acima mencionado. Fiz um documentário sobre síndrome de Down, Do luto à luta, que ajudou a semear uma nova mentalidade no Brasil, com reflexos até mesmo numa novela em horário nobre.

À margem do concreto, só para citar um exemplo, é tema de monografia em universidades, é constantemente exibido em seminários, defesas de teses, em circuitos alternativos de periferias, hospitais, escolas públicas, perdi o controle! O mesmo filme foi utilizado pelos movimentos de moradia como instrumento político para pedir a libertação de um dos principais líderes dos sem-teto no Brasil, Luiz Gonzaga da Silva, o Gegê. O próprio Gegê usa o filme para trabalhar com as bases do movimento. Enfim, como já disse, há uma fome de informação profunda e humanizada por aí e o cinema tem sim um papel político e social na nossa sociedade, por mais que seja um delicioso exercício de linguagem. E o cinema documentário é bem mais que um esplendoroso exercício lúdico de "obsolescência", uma outra tendência forte do documentário brasileiro contemporâneo, venerada pela crítica, de um modo geral.

Você já foi premiado em Brasília. Conseguiria fazer uma avaliação sobre a importância do festival?

O Festival de Brasília é uma das mostras mais importantes do cinema brasileiro e tem características muito marcantes que me encantam: o tratamento do documentário e da ficção em pé de igualdade, como já disse, e sobretudo o público de Brasília, que é alucinante, crítico, caloroso, irascível, indignado, generoso, um horizonte de expectativas que me fascina e me amedronta ao mesmo tempo.

Como encara uma noite de estréia de um filme teu? Dá frio na barriga?

Encarar o público de Brasília dá sempre um tremendo frio na barriga. Mas estou muito feliz! Sem nenhum tipo de demagogia, fiz esse filme pensando o tempo todo no Festival de Brasília. À margem do lixo é um filme político e o público do Festival de Brasília sempre foi a minha primeira meta, desde o primeiro dia de filmagem, sem rasgação de seda mentirosa. Quero muito mostrar a luta dos catadores para esse público tão pulsante, generoso e ao mesmo tempo tão indignado e sem papas na língua. A direção de fotografia do filme é assinada pelo carioca Gustavo Hadba e por André Lavenère, que é de Brasília, além de a segunda câmera ter sido pilotada pelo brasiliense Bruno Torres, ator, cineasta e fotógrafo, grande amigo e irmão mais novo, que também fez assistência de direção em À margem do lixo. Durante as filmagens, falávamos com muita freqüência na vontade de estrear o filme no Festival de Brasília e esse sonho se tornou realidade! Uma alegria imensa!

Você já foi editor do caderno de cultura do Estadão. Qual sua avaliação da cobertura jornalística da imprensa escrita brasileira para o cinema e, em especial, o cinema nacional e os festivais de cinema?

Acho que a imprensa brasileira tem sido uma grande parceira do cinema brasileiro e vem torcendo pela superação dos problemas que temos enfrentado, sobretudo no que diz respeito às baixas bilheterias no circuito comercial. Amo a crítica, pois, com a maior sinceridade da alma, acho que o processo artístico só se completa mesmo no olhar erudito do crítico, que vai contextualizar aquela determinada obra na história da arte, na história da humanidade, na filosofia, na história contemporânea. Tenho fascínio pela crítica e quero muito fazer um documentário sobre esse veio de resistência do cinema mundial, principalmente de realizadores independentes, que, em muitos momentos, não têm patrocínio, ou muito pouco, não têm o público, ou muito pouco, mas tem o olhar da crítica que vai legitimar historicamente a importância do cinema de resistência.

Acredita que o jornalista/crítico de cinema, nos dias de hoje, ainda tem papel relevante na formação de opinião do público?

Jornalistas e críticos têm um papel fundamental na contextualização dos filmes na sociedade contemporânea, chegando mesmo a vislumbrar coisas que passam despercebidas dos próprios realizadores. São formadores de opinião dos cineastas com relação aos próprios filmes. Acho que a crítica, por mais que envolva uma militância artística envolta numa aparente "objetividade"; por mais que essa subjetividade erudita cometa erros, como todo ser humano; a crítica é mais que fundamental, um espaço de resistência imprescindível para a oxigenação da arte contemporânea, tão massacrada pelo receituário de "sucessos" fáceis da indústria cultural.



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