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01/05/2009

Hug Jackman retorna às telas como o mutante que conquistou os fãs de quadrinhos

Tiago Faria

Além de interpretar o personagem-título, Jackman produziu o filme

Quem assistiu à edição mais recente do Oscar encontrou em Hugh Jackman um astro de mil e um talentos. No palco do Kodak Theater, o australiano cantou e sapateou como um antigo ídolo de musicais. Uma imagem distante daquela que estampa os cartazes de X-Men origens: Wolverine. No novo exemplar de uma franquia que já rendeu US$ 600 milhões nas bilheterias norte-americanas, o ator aparece com o visual rústico que o revelou a Hollywood: garras afiadas, barba por fazer, topete avantajado e a expressão furiosa de um típico herói de fitas de ação. Aos 40 anos, Jackman faz questão de não virar uma velha página: adota a selvageria do mutante Wolverine como investimento seguro — até demais.

O “homem mais sexy do mundo” (segundo a revista People) não se contenta em monopolizar a trama da superprodução que estreia hoje no Brasil. Homem de negócios, atua como produtor e chega a interferir no roteiro escrito por David Benioff (Tróia e O caçador de pipas) e Skip Woods (Swordfish — A senha). Só não consegue transformar o voo solo do brutamontes num espetáculo à altura de um dos super-heróis mais queridos pelos fãs de quadrinhos. Sem o texto inteligente e o arrojo visual de X-Men (2000) e X2 (2002), dirigidos por Bryan Singer, Wolverine parece simplesmente mal-acabado, aquém até mesmo do mediano X-Men: o confronto final (2006). Um produto de segunda mão.

Para narrar os “anos de formação” do personagem da Marvel, o longa se aproxima do formato de Batman begins (2005). Mais uma vez, o objetivo é explicar os traumas do herói, apresentar uma galeria renovada de personagens, lustrar a fórmula e, assim, saciar a curiosidade dos fãs. A diferença fundamental é que o cineasta sul-africano Gavin Hood (do drama Tsotsi — Infância roubada) nunca alcança o tom realista e a ambição trágica que ressuscitaram a carreira do Homem-Morcego. Na contramão de blockbusters sérios e extravagantes como Watchmen e O cavaleiro das trevas, Hood ameniza o impacto da violência e subestima os conflitos psicológicos. Na maior parte do tempo, é burocrático. Não deixa marcas. Contra isso, Jackman nada pode fazer: não há carisma que salve uma narrativa tão superficial.

Além do desinteresse de Hood pelo gênero, transparece na tela um processo acidentado de filmagem, marcado por brigas na equipe de produção, cenas rodadas às pressas e pela distribuição ilegal de uma cópia inacabada, vazada na internet. Ainda que evite o desastre (há fitas de ação mais desengonçadas), o resultado parece ter sido costurado em reuniões de executivos da Fox Films. Boa parte do orçamento de US$ 100 milhões provavelmente foi empregado em grandiosas sequências de ação, com explosões e perseguições sob medida para a plateia de Velozes e furiosos. Para não frustrar o público de X-Men, Wolverine é acompanhado por um time de mutantes como Gambit (Taylor Kitsch) e Wraith (Will.i.am), dominados pelo maquiavélico William Stryker (Danny Huston). Já vimos esse filme?

O principal fantasma de Wolverine, entretanto, está na própria família. Quando criança, o mutante assassinou acidentalmente o próprio pai. Já crescido, enfrenta a fúria do meio-irmão Dentes de Sabre (Liev Schreiber), que sequestra heróis para submetê-los a duvidosas experiências científicas. Como se não bastasse, a mulher por quem se apaixona (Lynn Collins) esconde segundas intenções. Uma vida de cão, que só piora quando ele se deixa transfigurar num ser indestrutível, com metal correndo nas veias. Sombria, a biografia do órfão rendeu, no início dos anos 1980, HQs cultuadas de Chris Claremont e Frank Miller. O filme dilui a promessa de um perfil virulento para um personagem guiado por instintos, suor e vísceras. Evita riscos. E, inofensivo, não assusta nem criancinha.


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